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O que House of Cards pode nos ensinar sobre politica?

A primeira série produzida pela Netflix foi concebida para fazer história. Há inúmeras análises sobre a revolução proporcionada pela Netflix em seu formato inovador, mas o que realmente nos seduz em House of Cards é o roteiro cru, realista, violento, impetuoso, antiético, sedutor, inspirado e revoltante.

A série é narrada por Frank Underwood, interpretado de forma magistral por Kevin Spacey, um democrata da Carolina do Sul que atua como líder do partido no Congresso norte-americano.

O planejamento maquiavélico de Frank e sua meticulosa execução talvez sejam as partes mais sedutoras e menos críveis do roteiro. House of Cards pode até exagerar na eficiência do seu personagem principal, mas coloca às claras algumas verdades inconvenientes sobre a política que, apesar de óbvias, não parecem ser tão evidentes para o público geral.

Em primeiro lugar, a série demonstra que não existe “um” governo. É comum encontrar em jornais, revistas e artigos a ideia de que o governo age como uma instituição unitária. Frases como “o governo elevará os impostos” ou “o governo afundou o país” são corriqueiras e soam naturais. É evidente que o processo de tomada de decisão governamental é fruto da barganha de grupos e indivíduos com interesses específicos e agendas próprias. A “ação coletiva” do governo nada mais é do que um produto da cooperação, disputas e trocas entre os membros que o constituem.

House of Cards contradiz a visão clássica de que a ação governamental é motivada pelo sentimento do “espírito público”. Na série, por exemplo, os ganhos e os custos da aprovação de uma reforma do sistema educacional não são medidos em termos de benefícios para a população, mas em termos de renda, prestígio e poder para os seus proponentes e opositores.

House of Cards é a política sem romance. Seu roteiro demonstra que os políticos estão totalmente voltados para a satisfação de seus interesses.

A história também demonstra outra verdade que foge ao senso comum: dinheiro e poder não são equivalentes. Na série, o personagem Remy Danton é um lobista profissional cujos clientes são grupos corporativos que mantêm vínculos políticos. Danton demonstra como as empresas, em comum acordo, buscam iniciativas que devem favorecer interesses específicos do grupo. Um dos patrões de Danton é Reymond Tusk, um magnata do setor de energia. Ambos mostram como capitalismo age e como o governo usa seu poder para beneficiar empresários com conexões políticas.

O poder econômico é um cliente do poder político, que jamais consegue sobrepor-se a ele.

A série demonstra, ainda, como a mídia pode ser inimiga ou aliada dos políticos. Cabe aos jornalistas vigiar, acompanhar os atos políticos, assassinar reputações e influenciar a opinião dos eleitores.

House of Cards quebra, por fim, o mito de que as ONGs funcionam à revelia de relações com o Estado. Claire Underwood (esposa de Frank) comanda uma ONG que faz uso contínuo de seus contatos no governo para adquirir fundos e facilidades para seus projetos.

A série é uma adaptação do romance homônimo escrito por Michael Dobbs. A facilidade de adaptação do roteiro original a realidades políticas distintas demonstra como o jogo de poder, o capitalismo, a ambição e a moral política são temas universais.

Vocês conseguem imaginar como seria a versão brasileira?

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